quinta-feira, 23 de abril de 2015

A IMIGRAÇÃO ALEMÃ EM SANTO AMARO



A imigração alemã no Brasil começa na década de 1820 quando, por meio de um decreto, Dom João VI convida diferentes regiões da Alemanha a enviarem seus excessos populacionais ao Brasil a fim de aqui estabelecerem colônias. Naquele ano é fundada a colônia agrícola de Nova Friburgo, Rio de Janeiro, que recebeu 265 famílias de suíços católicos, num total de 1458 imigrantes, os pioneiros da imigração germânica no Brasil.

Já no Primeiro Reinado, em 1825, Dom Pedro I (cuja primeira esposa, D. Leopoldina, era de origem germânica) determina a ida do major Jorge Antônio Von Schaeffer às regiões da Áustria, Prússia e Bavária. Sua missão era a de contratar militares para ajudar na consolidação da independência no sul do país e ainda buscar colonos agrícolas para o trabalho em províncias como a de São Paulo. Estando a Europa e em especial a Alemanha passando por grave recessão econômica, não foi difícil para o major Von Schaeffer recrutar um grande número de alemães dispostos a começar uma nova vida no Brasil.

Em 1827 chegam, ao Rio de Janeiro as primeiras famílias. Depois de algum tempo são reembarcadas com destino ao porto de Santos onde aportam a 13 de dezembro daquele ano. Eram 149 famílias, num total de 926 indivíduos dos quais 72 não casados.

Na província de São Paulo foi nomeado diretor da colônia o Dr. Justiniano de Melo Franco, fluente no idioma alemão por haver estudado medicina na Alemanha. Coube a ele encontrar o melhor lugar para a instalação da colônia. Foram cogitadas localidades como Juquiá, São Vicente, Itanhaém, mas em um primeiro momento nada estava ainda resolvido.
O Dr. Justiniano acabou por se decidir por um conjunto de terras devolutas (pertencentes à Coroa) localizadas em Santo Amaro, que distavam 4 léguas ao sul do centro da freguesia (atual distrito de Parelheiros). Ali estabeleceram-se 94 famílias num total de 336 indivíduos originários na sua maioria das regiões da alemãs da Prússia e da Renânia, região de Rundsrueck. Entre aquelas que originalmente se estabeleceram em Santo Amaro estavam as famílias Kirst, Sellig, Klein, Gilcher, Helfstein, Schunk, Conradt, Schneneider, Theisen, Kaspers, Schmidt, Gottfried, Reimberg, entre outras.

Para se estabelecerem como colonos receberiam incentivos do Governo Imperial tais como: recebimento em doação de terra virgem para o cultivo; auxílio financeiro diário por um ano e meio; animais domésticos de tração como cavalos e bois; ferramentas; semantes; isenção de impostos; assistência médica, educacional e religiosa (católica).

Mas o prometido pelo governo não veio e os alemães ficaram à própria sorte. Como se isso não bastasse, passaram por uma série de dificuldades. A terra recebida não se mostrou fértil como o prometido. Os colonos passaram a ser acometidos por doenças tropicais e sem assistência médica e longe dos grandes centros passaram a morrer. Cristãos protestantes, não podiam professar sua crença abertamente (o que era vedado pela Constituição de 1824). Acabavam batizando seus filhos na Igreja Católica e enterrando seus mortos junto a lápides católicas o que não era visto com bons olhos pelos católicos. Apenas na década de 1840 construíram um pequeno templo e um cemitério.

Apesar das dificuldades prosperaram. Graças ao trabalho desses imigrantes Santo Amaro já era considerada, a meados do século XIX, o “celeiro da capital”, responsável pela maior parte dos produtos vendidos no Mercado de São Paulo tais como feijão, milho, arroz, mandioca e batata inglesa, sendo que Santo Amaro foi, por muito tempo, o único produtor nacional desse tubérculo tão importante para a culinária alemã. Os alemães ainda comercializavam em São Paulo: gado, aves, madeira, carvão, tijolos todo levado à capital em carro de boi principalmente até a entrada em atividade dos primeiros trens a vapor, com destino à Capital em 1886.

Os colonos foram aos poucos se misturando à população rural de Santo Amaro. Tamanho era o isolamento desses alemães e a falta de instrução formal em escolas para seus filhos (e dos intérpretes prometidos) que aos poucos os imigrantes e seus descendentes foram perdendo a língua, as tradições e os costumes alemães. Essa falta de educação formal contribuiu ainda para a alteração na grafia de seus sobrenomes. Dessa forma Gottfried transmudou-se para Gotsfritz, Kasper para Casper (ou até Gaspar), Gilcher para Guilger, Sellig para Zilling, entre outras alterações. Costumes culinários como o consumo do joelho de porco, dos cremes de leite, dos chucrutes foram substituídos pelos brasileiríssimos feijão com arroz, mandioca, farinha e palmito que iam buscar no mato. O isolamento e dificuldade de acesso à educação formal contribuíram em muito para o acaboclamento dos alemães o que deu origem aos famosos “caipiras alemães” ou “caboclos loiros” de Santo Amaro.

Os alemães fundaram vilas no interior de Santo Amaro como as do Cipó e a de Parelheiros. Para poderem se locomover entre a mata fechada abrem estradas interligando as vilas e fazendas com o centro da cidade.

Com o passar dos anos a colônia se desfez (em 1847 só restavam na colônia 9 famílias) e muitas famílias a deixam com destino a outros pontos da zona rural do município. Algumas migram para a zona urbana em busca de novas oportunidades no comércio e nos serviços, inclusive o público. Habilidades mecânicas eram raras no Brasil daquele tempo e por isso mesmo bem pagas. Assim, apareceram alguns oficiais mecânicos, um alfaiate, um sapateiro, tanoeiros, serralheiros e torneiros entre os alemães de Santo Amaro.

Em 1883 assume o cargo de vereador o primeiro descendente de alemães: Antonio Theisen. Nas legislaturas seguintes outros como os famosos Luiz Schmitdt, José Guilger, Frederico Hessel, Adão Helfestein, etc. Alguns deles inclusive chegaram a ocupar a prefeitura do município.

No início do século XX dentre as personalidades mais importantes de Santo Amaro estavam descendentes daqueles pioneiros que com muito trabalho e disciplina germânica conquistaram o progresso em suas novas vidas nas terras tupiniquins.

A família Peggau em Santo Amaro

O alemão Andreas Peggau saiu da Alemanha, mais precisamente da cidadezinha de Konigslutter, Baixa Saxônia, com destino ao Brasil no final do século XIX. Viúvo, estabeleceu-se na cidade de Gaspar, Santa Cararina com suas duas filhas Auguste e Katharine.  Lá dedicou-se ao trabalho em serrarias juntamente com outros parentes que antes dele haviam imigrado para o Brasil. Aqui contrai novo matrimônio com Emilie Peggau, brasileira nascida em Blumenau/SC, filha de alemães. Tiveram 7 filhos: Otto, Klara, Ida, André, Helena, Augusto e Germano (de quem descende o autor deste blog).


Cidade de Konigslutter, Alemanha



No começo da década de 1910 Andreas Peggau e sua família mudam-se para Santo Amaro atraídos pela grande quantidade de alemães bem estabelecidos no município.

Viveu por muitos anos na Rua Jupi, uma travessa da Avenida Barão do Rio Branco.
Faleceu em 1944 tendo sido sepultado no Cemitério Municipal de Santo Amaro.


Andreas e Emilie Peggau com os netos no final da década de 30



REFERÊNCIAS

BERARDI, Maria Helena Petrillo. Santo Amaro Memória e História – da botina amarela ao chapéu de couro. Scortecci Editora: São Paulo, 2005.
Wikipedia

Arquivos pessoais 

Um comentário:

  1. Meu avô Gernano Peggau foi um dos "Caboclos Alemães" filho de Andreas Peggau.

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