quinta-feira, 24 de novembro de 2016

SANTO AMARO NA REVOLUÇÃO DE 32: A BATALHA DE CANANÉIA

Cananéia nos dias atuais

No final de agosto de 1932, os soldados santamarenses ocupavam o Estado do Paraná após importante vitória conseguida em Xiririca (hoje Eldorado/SP). A localidade de Porto da Linha, na época um importante centro rádio-telegráfico e hoje um bairro de Guaraqueçaba/PR, foi, durante 15 dias, ocupada pelos soldados de Santo Amaro. Ante a superioridade numérica do adversário, foi determinado recuo para São Paulo, mais precisamente para Colônia Santa Maria, localidade a oeste do município de Cananéia. Para reforçar o contingente que se retraía, mais soldados da Companhia Isolada do Exército de Santo Amaro – CIESA, voluntários de Iguape e de Cananéia e ainda soldados da Força Pública (9º BCP) foram deslocados de Registro para o novo teatro de operações a fim de conter os soldados ditatoriais que invadiam São Paulo por sua divisa sul-litorânea.  A tropa, comandada pelo 1º sargento da CIESA Sebastião Rodrigues de Campos, chegou à Colônia em 05/09/1932 após serem transportados em barcos pelo Rio Ribeira e pelo Mar Pequeno.

Soldados transportados pelo Rio Ribeira no vapor "Rio Una"

Os combates em Colônia Santa Maria: Ás margens do Mar Pequeno e a 60 km de Cananéia ficava essa colônia de imigrantes alemães e austríacos que em 1932 era habitada por 38 famílias que se dedicavam à rizicultura. Para essa localidade, hoje parte do Parque Estadual Lagamar, partiram os soldados paulistas a fim de dar combate às tropas ditatoriais comandadas pelo tenente Pedro Tromwposki. Em 09/09/1932 iniciou-se intenso combate no qual os paulistas, em inferioridade numérica, derrotaram os soldados ditatoriais que no combate perderam oito homens, tiveram diversos feridos, deixaram três prisioneiros, entre eles um oficial. Durante a fuga, deixaram os inimigos no campo de luta mais de 5.000 cartuchos de munição, 3 fuzis-metralhadoras, 15 fuzis, 16 barracas, cobertores e víveres. As forças constitucionalistas tiveram apenas 3 feridos levemente que foram socorridos à Santa Casa de Cananéia. Os combates em Colônia Santa Maria prosseguiram até 17/09. Mais uma vez, ante a superioridade numérica do inimigo, os soldados paulistas tiveram que abandonar a localidade retirando-se em barcos para a cidade de Cananéia onde aportaram em 18/09.

Parque Estadual Lagamar - Cananéia/SP

A defesa da cidade: Naquele mesmo dia um pelotão da CIESA, comandado pelo tenente Lobo chega também à cidade para reforçar a tropa do sargento Campos. O novo contingente, devidamente municiado, toma posição na localidade denominada Mandira, um antigo quilombo na estrada que liga o distrito de Itapitingui, ao norte de Cananéia, à Colônia Santa Maria, àquela altura já ocupada pelos ditatoriais. Ainda na organização da defesa da cidade outros dois grupamentos são posicionados nos distritos de Cubatão (de onde partiam os barcos do continente para a Ilha de Cananéia) e de Morretes no braço de mar que vai ao distante bairro de Ariri, limítrofe à localidade de Ararapira/PR.

Ararapira/PR - década de 20

No dia 20, procedente do sul, ancorou, na Ilha do Bom Abrigo, um destróier da Marinha que trazia a reboque uma lancha que no dia 21 tentou atacar a cidade. O ataque foi rechaçado pela guarnição que defendia Cananéia. No dia seguinte, temendo-se novos ataques por mar a partir do destróier, ordenou-se a evacuação da guarnição da cidade de Cananéia para o distrito de Cubatão. Em 23 de setembro Cananéia foi ocupada pelo inimigo.

Ilha do Bom Abrigo
Eis que, descumprindo ordens superiores, um grupo de trinta soldados santamarenses decide retomar a cidade. E assim o fazem após renhido combate no qual foram feitos 16 prisioneiros (inclusive 1 oficial) do exercito inimigo. Permanecem na defesa da cidade retomada apenas 5 homens armados de fuzis e uma metralhadora pesada. A 26 de setembro essa pequena guarnição evita nova invasão da cidade pelo inimigo em barcos que, acreditando estar a cidade abandonada, entregam suas armas. Foram feitos 80 prisioneiros, entre eles oficiais e médicos. Foram apreendidos ainda 80 mil cartuchos de munição, 5 metralhadoras e material cirúrgico suficiente para a montagem de um hospital de campanha. Esse foi, sem dúvida, um dos mais brilhantes feitos da Companhia Isolada do Exército de Santo Amaro e de toda a Revolução Constitucionalista!

O guarnição da cidade é novamente reforçado e no dia seguinte é duramente atacado por um contingente inimigo cinquenta vezes maior. O comandante da tropa inimiga exige que o comandante da CIESA se renda com seus homens. Este convida o comandante inimigo a vir buscar as armas de seus soldados...

Cananéia permaneceu em mãos paulistas até o fim da Revolução, em 2 de outubro de 1932.

O teatro de operações da Batalha de Cananéia em 1932


Referências

Caldeira, João Netto. “Álbum de Santo Amaro: A História dos Santamarenses”. Ed. Bentivenga e Netto, 1935

Jornal Folha da Manhã de 17 e 24 de setembro de 1932 (www.acervo.folha.uol.br)

Acessos em 16/11/2016

Um comentário:

  1. Após ler a narrativa dos brilhantes feitos dos combatentes da Companhia Isolada do Exército de Santo Amaro, achei de bom tom, fazer uma sugestão de correção aos textos dos fatos acima descritos. A meu ver, por tratar-se de narrativas históricas, dever-se-ia abandonar o tom revanchista que denomina as tropas inimigas do Estado de São Paulo como "os ditatoriais", substituindo-se por "tropas governamentais" ou "tropas federais". Após 84 anos passados da Revolução Constitucionalista de 1932, ao se narrarem os acontecimentos daquela época, penso que não há que se destilar mais rancores por algo que já pertence à História do Brasil e principalmente à História de São Paulo.

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