sexta-feira, 6 de novembro de 2015

CORONEL EUCLYDES FIGUEIREDO


Nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 12 de novembro de 1883. Ingressou no Colégio Militar do Rio de Janeiro aos 10 anos. Foi admitido como cadete na Escola Militar da Praia Vermelha em 1901 e lá teve sua primeira experiência revolucionária tomando parte da Revolta da Vacina em 1904. Expulso da escola com outros colegas, foi anistiado e readmitido 1 anos depois.

Por ter se destacado nos estudos enquanto cadete, após formado, ganhou bolsa de estudos para aperfeiçoamento na Alemanha, junto ao Exército Imperial Alemão, de lá regressando em 1912.

No ano seguinte, 1913, se casa com Valentina Silva de Oliveira Figueiredo com quem teve 5 filhos entre eles João Baptista Figueiredo, presidente do Brasil entre 1979 e 1985.


Coronel Euclydes e o filho Guilherme em 1932

O 30º Presidente do Brasil - João Baptista Figueiredo
                                                                  
Ainda na década de 10 funda com outros jovens oficiais do Exército, que também haviam participado da missão na Alemanha (aqui conhecidos como “jovens turcos”), a Liga da Defesa Nacional e revista Defesa Nacional que tinham entre seus objetivos a modernização do Exército Nacional.

De convicções políticas marcadamente civilistas, ao contrário da maioria dos demais oficiais do Exército, positivistas, opõe-se, ficando ao lado do governo e combatendo os insurgentes durante a revolta tenentista de 1922.

Em 1923, como capitão lotado no gabinete do Ministro da Guerra Setembrino de Carvalho, Euclydes vai ao Rio Grande do Sul mediar o fim da revolta ocorrida no interior do estado.  Tem participação ativa na assinatura do Tratado de Pedras Altas pelo qual os partidários dos políticos gaúchos Borges de Medeiros e Assis Brasil põem fim aos combates. Nesta ocasião se aproxima destes e de outros líderes gaúchos como Osvaldo Aranha, Flores da Cunha e João Neves da Fontoura.

Absteve-se de apoiar qualquer um dos dois candidatos na eleição presidencial ocorrida em março de 1930: Julio Prestes e Getúlio Vargas. Porém acreditava que cabia ao Exército apoiar o vencedor nas urnas, que, a despeito das suspeitas de fraude levantadas, foi Prestes. Acreditava que o Exército deveria manter-se longe da política, como defensor da constituição e dos anseios populares.

Durante a Revolução de 1930, já no posto de coronel comandante da 2ª Divisão de Cavalaria de Alegrete/RS, mantém-se ao lado da legalidade não tomando parte do movimento revolucionário de outubro daquele ano, mesmo após ser convidado a dele participar pelo amigo Osvaldo Aranha.

Osvaldo Aranha
Foi preso. Libertado no ano seguinte inicia conspiração - sob a perseguição implacável da polícia política de Vargas - junto a políticos paulistas e gaúchos que levaria à Revolução Constitucionalista de 1932.

Na manhã do dia 9 de julho de 32 chega à capital paulista para dar início ao levante. Na madrugada do dia seguinte toma o comando da 2ª Região Militar localizado na Chácara do Carvalho, no bairro da Barra Funda. Permaneceu como comandante da 2ª Região Militar até 12 de julho quando passou o comando ao seu antigo colega de missão na Alemanha, General Bertoldo Klinger, que daquela data em diante seria o comandante-geral das operações militares da Revolução. O coronel Euclydes dirigiu-se então à cidade de Cachoeira Paulista/SP onde instalou seu posto de comando e chefiou a 2ª Divisão de Infantaria em Operações na qual combateu, até o fim da Revolução, em diversas localidades no Vale do Paraíba (chamado Setor Norte da campanha).

Com o armistício que pôs fim à Revolução em 2 de outubro de 1932, Euclydes junto com outros seis companheiros decidem fugir para o Rio Grande do Sul, onde acreditavam que havia ainda alguma atividade revolucionária.  Apoiados e patrocinados por simpatizantes, empreendem verdadeira aventura para tentar dar continuidade à revolução iniciada em 9 de julho. Desembarcam de trem em  Mogi das Cruzes e de lá partem  para Santo Amaro por estradas vicinais, disfarçados, evitando a todo custo serem reconhecidos e presos pela polícia. Em Santo Amaro descem a Serra do Mar a pé por meio de trilhas. No pé da serra pegam um pequeno note que os leva até a praia de Guaraú em Peruíbe. De lá partem em um barco de pesca rumo ao Rio Grande do Sul.

O barco, que se chamava Odete, era pilotado por um barqueiro cujo apelido era “major”. Ao aportarem na Ilha dos Afogados, em Santa Catarina, pescadores locais ouviram quando um dos revolucionários chamou pelo apelido o barqueiro. A suposta presença de um “major” abordo da traineira, naqueles tempos de revolução, acabou chegando aos ouvidos da guarnição do Exército local. O comandante da guarnição determina a prisão de todos os ocupantes do barco, entre eles o coronel Euclydes.

Foi mandado ao Rio de Janeiro onde ficou preso junto a outros presos políticos ligados à Revolução Constitucionalista na Casa de Correição. Em outubro de 1932 foi exilado junto a outras dezenas de presos para Portugal. De lá conseguiu, ao lado de mais alguns companheiros, viajar para a Argentina onde já se encontravam outros revolucionários exilados, entre eles seu antigo chefe de estado maior no Vale do Paraíba, coronel Palimércio de Rezende.

Coronel Palimércio de Resende

Retornou ao Brasil em 1934 assim como todos os demais exilados políticos da Revolução de 32. Afastado do Exército uniu-se ao amigo e companheiro de lutas Palimércio e fundou uma empresa de engenharia. Em 1937, com o advento do Estado Novo de Vargas foi novamente preso ficando nessa situação até 1942. Perdeu seus direitos políticos e inclusive a própria cidadania sendo considerado, desde a sua prisão, como civilmente morto! Sua esposa recebia pensão de viúva e seus filhos eram considerados pela lei como órfãos!

Com a declaração de guerra do Brasil às potências do Eixo em julho de 1942, apresentou-se, como voluntário, para fazer parte da Força Expedicionária Brasileira que combateria na Itália. No ato da inscrição omitiu sua condição de ex-coronel, entretanto acabou sendo reconhecido por oficiais responsáveis pelo alistamento. Euclydes Figueiredo estava com 55 anos! A tentativa de inscrição como voluntário foi indeferida.

Em 1945 foi eleito deputado federal pela UDN e participou da Assembleia Constituinte que promulgou a Constituição Federal de 1946. Quando de sua diplomação como deputado ainda estava impedido do gozo de seus direitos políticos. Vivia-se já a abertura democrática e uma lei então foi promulgada revertendo-o à inatividade do Exército e concedendo-lhe a promoção a general-de-brigada.

Em 1950 tentou sem sucesso eleger-se senador pelo Distrito Federal e perdeu nova eleição para deputado federal em 1954.

Faleceu em Campinas em 20 de dezembro de 1963 aos 80 anos de idade.



Referências

FIGUEIREDO, Guilherme. Guilherme Figueiredo (depoimento, 1977). Rio de Janeiro, CPDOC


DUARTE, Paulo. Palmares pelo Avesso. São Paulo, Editora Progresso, 1947.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

DECÁLOGO DA VICTORIA



O movimento constitucionalista vencerá:

1)          Porque é um movimento de opinião;
      
     2)     Porque taes reivindicações são inspiradas por Deus e, jamais, fracassaram;
      
     3)     Porque seus soldados trazem um ideal no coração, o mesmo não succedendo aos seus irmãos de além fronteira;
      
     4)     Porque tudo aqui é feito pelo povo, absolutamente identificado com a causa abraçada; o mesmo não acontecendo com os que, iludidos, defendem a Dictadura – tudo lá lhes sabe a peso de ouro;
       
     5)     Porque a guerra depende decisivamente do fator econômico, o qual, mercê de Deus, não falta a esse povo laborioso;
      
     6)     Porque a efficiência do soldado na trincheira, depende, sobremodo, do trabalho da retaguarda – e aqui há ordem, disciplina, e racionalização do serviço bellico;                       

     7)     Porque a mulher constitucionalista vibra e labuta no aprestamento da victoria;
   
     8)     Porque à medida que cresce nossa eficiência, tudo nos indica o depauperamento dictatorial;
    
     9)    Porque a dictadura está irremediavelmente desacreditada e desmoralizada;
      
    10)   Porque 40 milhões de habitantes, deste glorioso Brasil, anseiam pela Ordem e pela Lei.



Publicado no Jornal Folha da Manhã de 13 de setembro de 1932

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O BRASÃO DE SANTO AMARO




O brasão de armas de Santo Amaro foi elaborado em 1926 por Affonso d’Escragnolle Taunay (que o concebeu) e José Wasth Rodrigues (que o desenhou e pintou).

Nele veem-se representados: as matas da então Vila de Santo Amaro, a figura do bandeirante, um militar do exército de Morgado de Matheus, índios Guaianazes (primeiros habitantes do local) e o escudo da família do Padre José de Anchieta (personagem de destaque durante a fundação do então povoado no século XVI). 

Padre José de Ancheieta - "Apóstolo do Brasil"

Na parte inferior do brasão uma representação de máquinas rudimentares utilizadas naquela que é considerada a primeira usina (engenho) de ferro das Américas. Segundo Edmundo Zenha, grande historiador de Santo Amaro, “o engenho de Nossa Senhora da Assunção de Ibirapuera começou a funcionar em 1607 e achava-se localizado nas terras de Martim Rodrigues Tenório de Aguiar”. Em 1629, com a morte de seu proprietário, o engenho, que ficava mais ou menos onde hoje está o Centro Empresarial, foi abandonado.

Centro Empresarial de São Paulo

Em 13 de fevereiro de 1928 o brasão de Santo Amaro foi oficializado por meio da Lei Municipal nº 62 (grafia original):

A Câmara Municipal de Santo Amaro Decreta:
Art. 1º - Fica approvado o projecto para o brazão para a cidade Santo Amaro, organizado pelo eminente historiador pátrio Dr. Affonso d’Escragnolle Taunay, cujo teor é o seguinte:

a)            Escudo redondo, portuguêz, encimado pela coroa mural, distinctiva das cidades, cortado   e partido;
b)         No primeiro quartel partido, apparecem à dextra, em campo de prata, árvores de sinople verde de uma floresta traduzindo o nome de Ibirapoéra, do nosso abanheenga, que no dizer da autoridade notável de Theodoro Samapaio significa “a matta grande”, o que concorda com a lição do insigne indianólogo Baptista Caetano de Almeida Nogueira;
c)     À senestra, em capo de ouro, cabeças de índios de carnação “affrontadas” para um escudete que é o brazão da família do Venerável Joseph Anchieta;
d)    No segundo quartel, em campo de goles (vermelho), uma machina antiga de forjar, segundo estampa de princípios do século XVII, com uma armação de madeira ao natural e a saíra (grande bigorna)  e malhão (grande martelo de forjar) de prata;
e)    Como tenentes, à dextra, uma bandeirante armado de arcabuz e revestido de seu característico gibão de armas, à senestra, um official de milícia regional, do tempo em que D. Luiz Antonio de Souza, Morgado de Matheus, fez a reorganização das forças militares da Capitania de São Paulo, recém estabelecida (documento do Archivo do Estado de São Paulo);
f)             Sobre a porta central da corôa mural, um escudete simula esculpidos em campo vermelho um livro da Regra de Santo Amaro, discípulo predilecto de São Bento e abbade;
g)   No listão inscreve-se em letras de goles e fundo de prata a divisa da cidade: ANTIQUISSIMUM GENUS PAULISTA MEUM (Pertenço à mais velha grey paulista).

Art. 2º - Para timbre nos papeis municipaes fica adoptado um escudo redondo com a parte do brazão descripta na letra “d” eneimado pela corôa mural e curcundado pelo listão com a divisa.

Art. 3º - Para distinctivo municipal, fica adoptado o escudo descripto no art. 2º (em ouro e esmalte) com designação do cargo.

§ único – O distinctivo será entregue mediante carga assignada em livro especial.

Art. 4º - Fica aberto o crédito necessário para a execução da presente lei.

Art. 5º - Revogam-se as disposições em contrário.
Prefeitura Municipal da Santo Amaro, em 13 de fevereiro de 1928

O Prefeito Municipal
(a)  Isaías Branco de Araújo

Referências bibliográficas:

GUERRA, Juvencio; GUERRA, Jurandyr. ALMANACK COMEMORATIVO DO 1º CENTENÁRIO DO MUNICÍPIO DE SANTO AMARO. São Paulo, Graphico Rossolill, 1932.

BERARDI, Maria Helena Petrillo. SANTO AMARO MEMÓRIA E HISTÓRIA, São Paulo, Scortecci Editora, 2005.

Pesquisas Internet (acessos em 26/10/2015)

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

TENENTE OSCAR PENTEADO STEVENSON




Francisco Oscar Penteado Stevenson nasceu em Campinas em 21 de março de 1900, filho do engenheiro Carlos William Stevenson (1869 – 1946) e Rita Nogueira Penteado Stevenson. Acompanhando os deslocamentos a trabalho de seu pai, viveu e cresceu entre as cidades de Campinas, Recife, Caxambú e Rio de Janeiro, onde foi aluno do Colégio Pedro II. Concluiu o ensino médio no Gymnasio do Estado de Campinas em 1919.  Casou-se em 1925 com Lourdes Penteado Stevenson com quem teve apenas uma filha: Eunice Penteado Stevenson. Residiu por muitos anos na cidade e no depois bairro de Santo Amaro.

Carreira Acadêmica

Ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo na qual se graduou como primeiro colocado da Turma nº 93 em 1924 recebendo pelo mérito o prêmio “Duarte de Azevedo”.

Além de advogado renomado, foi professor de história e português no Mackenzie College, no Gymnasio Nacional Rio Branco, no Gymnasio Oswaldo Cruz e na Escola de Comércio de Comércio Alvares Penteado. Foi professor de etnologia e etnogenia na Faculdade de Filosofia de São Paulo. Foi professor de criminologia e técnica policial na antiga Escola de Polícia de São Paulo. Livre docente em Direito Penal pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Foi catedrático da Faculdade Nacional de Direito, por onde se aposentou. Possui diversas obras publicadas, entre elas: “Disciplina Social”, “Do Crime Falimentar”, “Direito Penal Comum”, “Fatores do Crime”, etc. Foi o redator do anteprojeto do primeiro Código Penitenciário nacional em 1957.

Carreira Política

Ocupou diversos cargos públicos, alguns por nomeação outros por eleição. Merecem destaque os de vereador do Município de Santo Amaro até 1930,  quando foi secretário da mesa diretora da casa; membro do Conselho Consultivo do Estado em 1932 durante o Governo Revolucionário de Pedro de Toledo; membro do Conselho Consultivo de Santo Amaro; Vice-Presidente da Federação dos Voluntários de São Paulo; Deputado Federal pelo Partido Constitucionalista de São Paulo e Secretário Municipal dos Negócios Jurídicos da Prefeitura de São Paulo nos anos 50.

Revolução de 1932

Durante a Revolução ocupou papel de destaque ajudando na organização e integrando o agrupamento de voluntários da cidade de Santo Amaro que partiu para o front sul-litorâneo do Estado: CIESA (Companhia Isolada do Exército de Santo Amaro). Recebeu do comandante do setor, coronel Mello Mattos, o posto comissionado de 2º tenente.

Em 25 de abril de 1935 foi homenageado por sua participação na Revolução com jantar servido no Clube Português de São Paulo. Na ocasião recebeu de seus ex-comandados, entre outros mimos, um álbum de fotografias com registros da campanha santamarense na Epopeia de 32.

Faleceu em 10 de novembro de 1977 na cidade do Rio de Janeiro.

Referências

Caldeira, João Netto. “Álbum de Santo Amaro: A História dos Santamarenses”. Ed. Bentivenga e Netto, 1935

Jornal Correio Popular de Campinas, edição de 1º de novembro de 1973

www.arcadas.org.br – acesso em 16/10/2015


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A COMPANHIA DE SANTO AMARO EM 1932 NA OBRA DE PAULO NOGUEIRA FILHO – 1ª Parte


Nascido em São Paulo em 16/11/1898, o político e latifundiário paulista Paulo Nogueira Filho foi personagem de destaque durante a Revolução de 32.

Antes, em 1926, ajudou a fundar o Partido Democrático e em 1930 fez parte da Aliança Liberal que levou Getúlio Vargas ao poder após a Revolução de outubro do mesmo ano.
Até 1931, ocupou a Secretaria de Compras do Ministério da Fazenda de Vargas, pasta então comandada pelo banqueiro paulista José Maria Whitaker.

Em 1932, foi um dos principais articuladores da Frente Única Paulista, união dos partidos Democrático e Republicano Paulista, que fazia oposição ao governo Vargas e que se constituiu no grande braço político da Revolução Constitucionalista.

Entre as décadas de 50 e 60, Paulo Nogueira Filho publicou sua monumental obra, organizada em seis volumes, intitulada: “A Guerra Cívica 1932: Ideais e Lutas de um Burguês Progressista”.

Faleceu em 30/10/1969 sem conseguir terminar sua obra a qual contém algumas poucas referências à participação de Santo Amaro na Revolução.

No segundo tomo do terceiro volume da obra há um capítulo destinado à Companhia Isolada do Exército de Santo Amaro - CIESA. Neste narra a formação da companhia e as operações militares das quais fez parte o contingente santamarense até o final de julho de 1932.

Com o escopo de preservar, resgatar e dar conhecimento às novas gerações sobre a participação dos soldados de Santo Amaro na grande Epopeia de 32 transcrevemos abaixo parte da obra deste grande paulista.

Paulo Nogueira Filho 




Companhia Isolada do Exército

A ação do Destacamento da Serra não se limitou à praça militar santista, à guarda da ferrovia São Paulo - Santos e da usina elétrica do Cubatão, bem como à vigilância nas praias e recôncavos da costa próximas ao grande porto.  Abrangeu igualmente a defesa de toda a zona da Mayrink-Santos, da Santos-Juquiá, e da região que medeia entre a última estação desta ferrovia e extremo sul do Estado de São Paulo.

Tendo em conta a extensão desta região, o acidentado de sua topografia, a rarefação e pobreza da população, bem como as dificuldades de transporte, então aí existentes, é fácil conceber os prodígios que se impuseram aos homens incumbidos da defesa desse setor. Foi ela, entretanto, realizada com indizível espirito de sacrifício e bravura por um punhado de voluntários civis, gente da elite, agremiada em Santo Amaro pelo prefeito Francisco Ferreira Lopes e posta sob o comando de um oficial do Exército. Klinger dedica a essa tropa as cinco linhas seguintes: “Em conexão com o Destacamento do Alto da Serra, a 17 de julho foi nomeado o 2º Tenente-aviador Luis Martins de Araújo – apresentado a 14 – para comandar a Companhia de Guerra organizada pela Prefeitura de Santo Amaro a qual agirá no setor da Serra do Mar, trecho da estrada de rodagem que acompanha a linha Mayrink-Santos.”

Francisco Ferreira Lopes - Prefeito de Santo Amaro em 1932

Bem entendido: os objetivos enunciados pelo General são apenas os de início assinados a esse contingente. Logo eles se estenderão a uma esfera de ação amplíssima. Malgrado esse fato, nos livros e crônicas da Guerra Cívica, pouquíssimas são as referências a essa coluna que no Destacamento de Mello Matos prestou serviços de guerra indeléveis à causa paulista. Creio que isso se explica apenas por condenável modéstia de seus integrantes, entre os quais se encontrava o professor Oscar Penteado Stevenson. É, entretanto, imprescindível que sua história venha a lume, como revelação de aspectos dos mais belos e característicos da Guerra Cívica.

Oscar Penteado Stevenson

O contingente é composto todo ele de voluntários, alistados por puro idealismo, que partem para o cumprimento de missões, entre as quais algumas chegaram a ser julgadas superiores à capacidade de seus executores, soldados mal preparados e dispondo de materiais de guerra precaríssimos.

Esteados na confiança que tinham em si mesmos e na vontade férrea de concorrer para a libertação de sua terra, adaptaram-se os jovens componentes dessa “Companhia Isolada do Exército” às piores condições ambientes, realizando prodigiosas improvisações no preparo e improvisação das ações bélicas que tiveram a seu cargo. Não raro, em dias ou horas apenas, transformaram-se em destemidos e destros guerrilheiros.

Outro aspecto extraordinário a ressaltar nesse núcleo de combatentes do Litoral Sul é que, inicialmente formado por moços por padrões altos de bem-estar, conforto e segurança, ele se vai ampliando, à medida que aumentam os sacrifícios pessoais e os riscos coletivos! Seu efetivo, em vez de se restringir, se ensancha, com as sucessões de adesões espontâneas e de valia trazida pela caboclada da região e por inúmeros nordestinos, que, em fases árduas da luta, se irmanaram com os voluntários de Santo Amaro, enfileirando-se entre os melhores e mais ardorosos combatentes, tal como esse heroico Delmiro Sampaio que sacrificou conscientemente sua vida em combate para salvar seu comandante!

Esse punhado de bravos, na primeira semana da Guerra partiu para o alto da Serra, na linha Mayrink-Santos. Enquadrados no Destacamento Mello Matos, dois dias após tiverem ordem de se movimentar rumo à Juquiá, o que fizeram por Santos. Estacionaram primeiramente na ponta dos trilhos da estrada de ferro, organizando, como lhes cumpria, eficiente vigilância em profundidade da direção da fronteira do Paraná. Nessa ocasião chega-lhes a dolorosa notícia do que ocorrera em Itararé, Faxina e Apiaí.
Ao encontro dos retirantes do combate travado nesta última localidade, seguiu prontamente um dos pelotões da Companhia Isolada.

Mas, aí, já no mês de agosto, começa outra fase da Epopeia em que veremos em ação esses combatentes, que nunca foram vencidos!

Soldados da Companhia Isolada do Exército de Santo Amaro em 1932



Bibliografia

NOGUEIRA FILHO, Paulo. A Guerra Cívica 1932: Ideais e Lutas de um Burguês Progressista, 3º Volume, 2º Tomo, p.369/371. São Paulo: Editora José Olympio.

GUERRA, Juvencio; GUERRA, Jurandyr. ALMANACK COMEMORATIVO DO 1º CENTENÁRIO DO MUNICÍPIO DE SANTO AMARO. São Paulo: Graphico Rossolillo.

WIKIPÉDIA (pt.wikipedia.org) – acesso em 08/09/2015

bernardoschmidt.blogspot.com.br - acesso em 08/09/2015

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

VISITA AO TÚNEL DA MANTIQUEIRA


“Eu estive no Túnel e vi o soldado lutando. E o soldado não me viu porque estava lutando. Estava integralmente lutando...” (Carlos Drummond de Andrade, 1932)




 No último dia 8 de agosto tive finalmente a oportunidade de conhecer o famoso túnel palco dos mais famosos combates da Revolução de 32.

Na companhia do professor e guia local Carlos Henrique do Nascimento caminhei por algumas horas pelas imediações do túnel entre os municípios de Cruzeiro (SP) e Passa Quatro (MG). Ao final da viagem uma rápida passagem pela cidade paulista vizinha de Lavrinhas outro local de combates na Frente Norte do bravo Exército Constitucionalista.

O TÚNEL E SEU PAPEL NA REVOLUÇÃO DE 32

O túnel da Mantiqueira é um túnel ferroviário localizado na divisa de São Paulo e Minas Gerais. Oficialmente inaugurado em 1883 pelo Imperador Dom Pedro II, sua construção foi iniciada em 1882 e levou 7 meses para ser concluída. Com 975 metros de comprimento, escavados em rocha sólida, chegou a ser considerado o segundo maior túnel da América Latina. Por imposição dos ingleses, para sua construção não se usou mão-de-obra escrava e os negros empregados, já libertos ou alforriados, trabalhavam mediante percebimento de salário.

O túnel se localiza entre as cidades de Cruzeiro/SP Passa Quatro/MG e por seus trilhos não trafegam mais composições ferroviárias desde a década de 80. Encontra-se, portanto, abandonado. 

A cidade de Cruzeiro, por ser ponto de entroncamento de duas importantes redes ferroviárias (Rede Sul Mineira e Central do Brasil), ocupava posição estratégica em 1932, transformando-se em local de convergência de tropas sublevadas na região do Vale do Paraíba, vindas de todo o estado e que fizeram parte da 2ª Divisão de Infantaria em Operações (DIO), sob o comando do Coronel Euclydes Figueiredo. 

Já em 10 de julho de 1932, ou seja, no dia seguinte ao início do levante, tropas paulistas do 5º Regimento de Infantaria de Campinas sob o comando do major Henrique Quintiliano ocuparam o túnel. Ocuparam ainda as estações próximas de Perequê (do lado paulista), Túnel, Manacá e Passa Quatro (do lado mineiro) permanecendo estas sob manso domínio paulista até 15 de julho. Neste dia chegam à Passa Quatro soldados do Exército do 4º Regimento de Cavalaria Divisionária de Três Corações e do 10º Regimento de Infantaria de Juiz de Fora comandados pelo tenente-coronel Eurico Gaspar Dutra (que entre 1946 e 1950 governaria o Brasil). Os soldados paulistas que estavam na estação se aproximam dos mineiros com o intuito de com eles confraternizarem (desconheciam que Minas Gerais não havia aderido à Revolução) e são recebidos a balas!

Aquelas que seriam apenas as primeiras das dezenas de milhares que foram disparadas por ambos os lados durante os 59 dias de combates na área do túnel.

O comando das forças ditatoriais acreditava que venceria a resistência paulista com facilidade e que em dois dias estaria entrando em Cruzeiro com suas tropas. Não contava com a resistência e a tenacidade dos soldados paulistas que ao longo da luta foram reforçados por tropas do 2º Grupo de Artilharia Pesada (comandados pelo famoso capitão Arci), de batalhões patrióticos (compostos por voluntários) como Batalhão Bahia, Corpo de Bombeiros e do 2º Batalhão de Caçadores Paulistas da Força Pública de São Paulo (comandado até 26 de julho pelo tenente-coronel Herculano de Carvalho). As tropas ditatoriais seriam posteriormente reforçadas por grande contingente da Força Pública de Minas Gerais comandadas pelos coronéis Edmundo Lery e Franciso Bueno Brandão.

Os paulistas, senhores do túnel no início da campanha, foram aos poucos perdendo posições no terreno para as tropas ditatoriais em maior número e mais bem armadas. Logo nos primeiros dias de combates os paulistas deixam o lado mineiro do túnel. Nos seguintes perdem posições estratégicas importantes nos morros próximos ao túnel como os Picos do Cristal, Itaguaré e Garupa no flanco esquerdo e os Picos da Gomeira e Gomeirinha no flanco direito.

Ainda assim as tropas paulistas resistiam bravamente aos ataques ditatoriais. Grandes eram as dificuldades enfrentadas pelos soldados constitucionalistas em especial quanto a continua redução do estoque de munições, alimentação e substituição dos soldados em combate por tropa de reserva.

Em 12 de setembro, durante a noite e sob fogo de cobertura de artilharia, os paulistas são obrigados a abandonar o túnel. Teriam condições de resistir por mais alguns dias, porém as tropas getulistas estavam às portas de Cruzeiro, pelo eixo Rio-São Paulo, o que comprometia a retaguarda constitucionalista. Pela manhã do dia seguinte os ditatoriais finalmente ocupam o túnel da Mantiqueira. Às quatro horas da manhã do dia 14 o coronel Edmundo Lery entra em Cruzeiro onde se encontra com as tropas do general ditatorial Daltro Filho vindas de Lavrinhas.

As tropas paulistas, seguindo ordem do coronel Figueiredo, fazem grande retraimento para a cidade de Guaratinguetá onde se encontrava a última linha de defesa paulista no Vale do Paraíba em 2 de outubro, data da cessação das hostilidades entre constitucionalistas e ditatoriais.  

Segundo o livro Cruzes Paulistas, de 1936, dos pouco mais de 600 paulistas mortos durante a Revolução de 1932, 66 perderam a vida no túnel da Mantiqueira. Dentre os soldados getulistas não há um número oficial, mas acredita-se que, só no túnel, tenham morrido entre 200 e 400 homens. Estima-se ainda que mais de 200 corpos estejam enterrados nas cercanias do túnel. Nenhum deles identificado até hoje. Bravos soldados desconhecidos que tingiram de vermelho as matas e os morros da Serra da Mantiqueira na defesa de um ideal.

Que descansem em paz...


Mapa da região do Túnel da Mantiqueira (localização aproximada em vermelho)

Soldados constitucionalistas na extremidade paulista do túnel em 1932




Soldados Paulistas entrincheirados no túnel

Local próximo à extremidade paulista do túnel sob ataque inimigo em 32


A caminho do túnel 83 anos depois
Extremidade paulista do túnel atualmente


Caminhando pelo túnel

Pelo caminho pedras indicando local de sepultamento de soldados desconhecidos


Extremidade mineira do túnel



Monumento em homenagem aos paulistas mortos em combate




Referências Bibliográficas

PINHO, Celso Luiz. 1932 - O TÚNEL DA DISCÓRDIA. Editora Gregory: São Paulo, 2012

NOGUEIRA FILHO, Paulo. A GUERRA CÍVICA 1932. Resumo da obra em 6 tomos por Paulo Ferraz do Amaral. Sociedade Veteranos de 32, 1982


O TERRÍVEL TREM BLINDADO



Das armas usadas pelos paulistas durante a Revolução de 32 talvez a mais impressionante tenha sido o Trem Blindado (TB). Seis deles operaram durante a Revolução nas frentes Sul, Leste ou Mineira e Norte (Vale do Paraíba).

Segundo o Coronel Euclydes Figueiredo, comandante das tropas paulistas no Vale do Paraíba, o trem foi “um valioso engenho de guerra criado pelos engenheiros ferroviários paulistas. Compunham-no dois carros-bagagem da E.F. Paulista, tendo de permeio uma locomotiva. Esses três elementos, separadamente eram envoltos por uma couraça, constituída de duplas chapas de aço com pranchões de madeira ao centro. Num dos carros abriam-se seteiras para metralhadoras pesadas e fuzis-metralhadoras e para observação dos tiros; no outro, o da frente, havia, além disso, dispositivo para colocação de uma peça 75. Iluminavam-lhe o caminho sobre o leito da estrada de ferro dois possantes projetores, que também serviam para clarear o campo de tiro de suas armas[1]

Coronel Euclydes Figueiredo

Apelidado pelos soldados ditatoriais de o “Fantasma da Morte”, este primoroso fruto da inventividade paulista levava o pânico às linhas inimigas. Seus holofotes (projetores) durante a noite iluminavam as trincheiras do adversário clareando os alvos para suas armas causando pesadas baixas aos ditatoriais.

Equívocos, como em qualquer guerra, aconteceram e nosso trem blindado atacou com precisão não apenas as trincheiras inimigas, mas também as paulistas! Verdadeiras ocorrências de “fogo amigo” verificadas em mais de uma ocasião e em  diferentes setores de combate. Paulo Duarte, oficial voluntário e ex-comandante de trem blindado, narra uma dessas ocorrências na região da divisa com o Rio de Janeiro: “Acordou-nos o Barbieri, anunciando a chegada dos mortos. ‘Que mortos?’ ‘Pois esta noite o trem blindado matou uma trincheira inteirinha nossa!’ Corremos à estação. Sobre uma gôndola recém- chegada, oito feridos. Dois em coma. Uns gemiam, outros sofriam em silêncio. Soldados em torno assistindo a remoção para uma ambulância. ‘Está vendo, seu capitão! Em vez de acabar com o inimigo, acaba com os nossos.’ ‘Como?’ interroguei de cara fechada. ‘O blindado que fez esse estrago![2]

Paulo Duarte - Fonte:unicamp.br/cedae



Trem Blindado que operou no Setor Sul - Estrada de Ferro Sorocabana





[1] FIGUEIREDO, Euclydes. CONTRIBUIÇÃO PARA A HISTÓRIA DA REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932, p.195. Livraria Martins Editora, 1981.
[2] DUARTE, Paulo. PALMARES PELO AVESSO, p.56. Instituto Progresso Editorial, 1947.