sexta-feira, 16 de outubro de 2015

TENENTE OSCAR PENTEADO STEVENSON




Francisco Oscar Penteado Stevenson nasceu em Campinas em 21 de março de 1900, filho do engenheiro Carlos William Stevenson (1869 – 1946) e Rita Nogueira Penteado Stevenson. Acompanhando os deslocamentos a trabalho de seu pai, viveu e cresceu entre as cidades de Campinas, Recife, Caxambú e Rio de Janeiro, onde foi aluno do Colégio Pedro II. Concluiu o ensino médio no Gymnasio do Estado de Campinas em 1919.  Casou-se em 1925 com Lourdes Penteado Stevenson com quem teve apenas uma filha: Eunice Penteado Stevenson. Residiu por muitos anos na cidade e no depois bairro de Santo Amaro.

Carreira Acadêmica

Ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo na qual se graduou como primeiro colocado da Turma nº 93 em 1924 recebendo pelo mérito o prêmio “Duarte de Azevedo”.

Além de advogado renomado, foi professor de história e português no Mackenzie College, no Gymnasio Nacional Rio Branco, no Gymnasio Oswaldo Cruz e na Escola de Comércio de Comércio Alvares Penteado. Foi professor de etnologia e etnogenia na Faculdade de Filosofia de São Paulo. Foi professor de criminologia e técnica policial na antiga Escola de Polícia de São Paulo. Livre docente em Direito Penal pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Foi catedrático da Faculdade Nacional de Direito, por onde se aposentou. Possui diversas obras publicadas, entre elas: “Disciplina Social”, “Do Crime Falimentar”, “Direito Penal Comum”, “Fatores do Crime”, etc. Foi o redator do anteprojeto do primeiro Código Penitenciário nacional em 1957.

Carreira Política

Ocupou diversos cargos públicos, alguns por nomeação outros por eleição. Merecem destaque os de vereador do Município de Santo Amaro até 1930,  quando foi secretário da mesa diretora da casa; membro do Conselho Consultivo do Estado em 1932 durante o Governo Revolucionário de Pedro de Toledo; membro do Conselho Consultivo de Santo Amaro; Vice-Presidente da Federação dos Voluntários de São Paulo; Deputado Federal pelo Partido Constitucionalista de São Paulo e Secretário Municipal dos Negócios Jurídicos da Prefeitura de São Paulo nos anos 50.

Revolução de 1932

Durante a Revolução ocupou papel de destaque ajudando na organização e integrando o agrupamento de voluntários da cidade de Santo Amaro que partiu para o front sul-litorâneo do Estado: CIESA (Companhia Isolada do Exército de Santo Amaro). Recebeu do comandante do setor, coronel Mello Mattos, o posto comissionado de 2º tenente.

Em 25 de abril de 1935 foi homenageado por sua participação na Revolução com jantar servido no Clube Português de São Paulo. Na ocasião recebeu de seus ex-comandados, entre outros mimos, um álbum de fotografias com registros da campanha santamarense na Epopeia de 32.

Faleceu em 10 de novembro de 1977 na cidade do Rio de Janeiro.

Referências

Caldeira, João Netto. “Álbum de Santo Amaro: A História dos Santamarenses”. Ed. Bentivenga e Netto, 1935

Jornal Correio Popular de Campinas, edição de 1º de novembro de 1973

www.arcadas.org.br – acesso em 16/10/2015


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A COMPANHIA DE SANTO AMARO EM 1932 NA OBRA DE PAULO NOGUEIRA FILHO – 1ª Parte


Nascido em São Paulo em 16/11/1898, o político e latifundiário paulista Paulo Nogueira Filho foi personagem de destaque durante a Revolução de 32.

Antes, em 1926, ajudou a fundar o Partido Democrático e em 1930 fez parte da Aliança Liberal que levou Getúlio Vargas ao poder após a Revolução de outubro do mesmo ano.
Até 1931, ocupou a Secretaria de Compras do Ministério da Fazenda de Vargas, pasta então comandada pelo banqueiro paulista José Maria Whitaker.

Em 1932, foi um dos principais articuladores da Frente Única Paulista, união dos partidos Democrático e Republicano Paulista, que fazia oposição ao governo Vargas e que se constituiu no grande braço político da Revolução Constitucionalista.

Entre as décadas de 50 e 60, Paulo Nogueira Filho publicou sua monumental obra, organizada em seis volumes, intitulada: “A Guerra Cívica 1932: Ideais e Lutas de um Burguês Progressista”.

Faleceu em 30/10/1969 sem conseguir terminar sua obra a qual contém algumas poucas referências à participação de Santo Amaro na Revolução.

No segundo tomo do terceiro volume da obra há um capítulo destinado à Companhia Isolada do Exército de Santo Amaro - CIESA. Neste narra a formação da companhia e as operações militares das quais fez parte o contingente santamarense até o final de julho de 1932.

Com o escopo de preservar, resgatar e dar conhecimento às novas gerações sobre a participação dos soldados de Santo Amaro na grande Epopeia de 32 transcrevemos abaixo parte da obra deste grande paulista.

Paulo Nogueira Filho 




Companhia Isolada do Exército

A ação do Destacamento da Serra não se limitou à praça militar santista, à guarda da ferrovia São Paulo - Santos e da usina elétrica do Cubatão, bem como à vigilância nas praias e recôncavos da costa próximas ao grande porto.  Abrangeu igualmente a defesa de toda a zona da Mayrink-Santos, da Santos-Juquiá, e da região que medeia entre a última estação desta ferrovia e extremo sul do Estado de São Paulo.

Tendo em conta a extensão desta região, o acidentado de sua topografia, a rarefação e pobreza da população, bem como as dificuldades de transporte, então aí existentes, é fácil conceber os prodígios que se impuseram aos homens incumbidos da defesa desse setor. Foi ela, entretanto, realizada com indizível espirito de sacrifício e bravura por um punhado de voluntários civis, gente da elite, agremiada em Santo Amaro pelo prefeito Francisco Ferreira Lopes e posta sob o comando de um oficial do Exército. Klinger dedica a essa tropa as cinco linhas seguintes: “Em conexão com o Destacamento do Alto da Serra, a 17 de julho foi nomeado o 2º Tenente-aviador Luis Martins de Araújo – apresentado a 14 – para comandar a Companhia de Guerra organizada pela Prefeitura de Santo Amaro a qual agirá no setor da Serra do Mar, trecho da estrada de rodagem que acompanha a linha Mayrink-Santos.”

Francisco Ferreira Lopes - Prefeito de Santo Amaro em 1932

Bem entendido: os objetivos enunciados pelo General são apenas os de início assinados a esse contingente. Logo eles se estenderão a uma esfera de ação amplíssima. Malgrado esse fato, nos livros e crônicas da Guerra Cívica, pouquíssimas são as referências a essa coluna que no Destacamento de Mello Matos prestou serviços de guerra indeléveis à causa paulista. Creio que isso se explica apenas por condenável modéstia de seus integrantes, entre os quais se encontrava o professor Oscar Penteado Stevenson. É, entretanto, imprescindível que sua história venha a lume, como revelação de aspectos dos mais belos e característicos da Guerra Cívica.

Oscar Penteado Stevenson

O contingente é composto todo ele de voluntários, alistados por puro idealismo, que partem para o cumprimento de missões, entre as quais algumas chegaram a ser julgadas superiores à capacidade de seus executores, soldados mal preparados e dispondo de materiais de guerra precaríssimos.

Esteados na confiança que tinham em si mesmos e na vontade férrea de concorrer para a libertação de sua terra, adaptaram-se os jovens componentes dessa “Companhia Isolada do Exército” às piores condições ambientes, realizando prodigiosas improvisações no preparo e improvisação das ações bélicas que tiveram a seu cargo. Não raro, em dias ou horas apenas, transformaram-se em destemidos e destros guerrilheiros.

Outro aspecto extraordinário a ressaltar nesse núcleo de combatentes do Litoral Sul é que, inicialmente formado por moços por padrões altos de bem-estar, conforto e segurança, ele se vai ampliando, à medida que aumentam os sacrifícios pessoais e os riscos coletivos! Seu efetivo, em vez de se restringir, se ensancha, com as sucessões de adesões espontâneas e de valia trazida pela caboclada da região e por inúmeros nordestinos, que, em fases árduas da luta, se irmanaram com os voluntários de Santo Amaro, enfileirando-se entre os melhores e mais ardorosos combatentes, tal como esse heroico Delmiro Sampaio que sacrificou conscientemente sua vida em combate para salvar seu comandante!

Esse punhado de bravos, na primeira semana da Guerra partiu para o alto da Serra, na linha Mayrink-Santos. Enquadrados no Destacamento Mello Matos, dois dias após tiverem ordem de se movimentar rumo à Juquiá, o que fizeram por Santos. Estacionaram primeiramente na ponta dos trilhos da estrada de ferro, organizando, como lhes cumpria, eficiente vigilância em profundidade da direção da fronteira do Paraná. Nessa ocasião chega-lhes a dolorosa notícia do que ocorrera em Itararé, Faxina e Apiaí.
Ao encontro dos retirantes do combate travado nesta última localidade, seguiu prontamente um dos pelotões da Companhia Isolada.

Mas, aí, já no mês de agosto, começa outra fase da Epopeia em que veremos em ação esses combatentes, que nunca foram vencidos!

Soldados da Companhia Isolada do Exército de Santo Amaro em 1932



Bibliografia

NOGUEIRA FILHO, Paulo. A Guerra Cívica 1932: Ideais e Lutas de um Burguês Progressista, 3º Volume, 2º Tomo, p.369/371. São Paulo: Editora José Olympio.

GUERRA, Juvencio; GUERRA, Jurandyr. ALMANACK COMEMORATIVO DO 1º CENTENÁRIO DO MUNICÍPIO DE SANTO AMARO. São Paulo: Graphico Rossolillo.

WIKIPÉDIA (pt.wikipedia.org) – acesso em 08/09/2015

bernardoschmidt.blogspot.com.br - acesso em 08/09/2015

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

VISITA AO TÚNEL DA MANTIQUEIRA


“Eu estive no Túnel e vi o soldado lutando. E o soldado não me viu porque estava lutando. Estava integralmente lutando...” (Carlos Drummond de Andrade, 1932)




 No último dia 8 de agosto tive finalmente a oportunidade de conhecer o famoso túnel palco dos mais famosos combates da Revolução de 32.

Na companhia do professor e guia local Carlos Henrique do Nascimento caminhei por algumas horas pelas imediações do túnel entre os municípios de Cruzeiro (SP) e Passa Quatro (MG). Ao final da viagem uma rápida passagem pela cidade paulista vizinha de Lavrinhas outro local de combates na Frente Norte do bravo Exército Constitucionalista.

O TÚNEL E SEU PAPEL NA REVOLUÇÃO DE 32

O túnel da Mantiqueira é um túnel ferroviário localizado na divisa de São Paulo e Minas Gerais. Oficialmente inaugurado em 1883 pelo Imperador Dom Pedro II, sua construção foi iniciada em 1882 e levou 7 meses para ser concluída. Com 975 metros de comprimento, escavados em rocha sólida, chegou a ser considerado o segundo maior túnel da América Latina. Por imposição dos ingleses, para sua construção não se usou mão-de-obra escrava e os negros empregados, já libertos ou alforriados, trabalhavam mediante percebimento de salário.

O túnel se localiza entre as cidades de Cruzeiro/SP Passa Quatro/MG e por seus trilhos não trafegam mais composições ferroviárias desde a década de 80. Encontra-se, portanto, abandonado. 

A cidade de Cruzeiro, por ser ponto de entroncamento de duas importantes redes ferroviárias (Rede Sul Mineira e Central do Brasil), ocupava posição estratégica em 1932, transformando-se em local de convergência de tropas sublevadas na região do Vale do Paraíba, vindas de todo o estado e que fizeram parte da 2ª Divisão de Infantaria em Operações (DIO), sob o comando do Coronel Euclydes Figueiredo. 

Já em 10 de julho de 1932, ou seja, no dia seguinte ao início do levante, tropas paulistas do 5º Regimento de Infantaria de Campinas sob o comando do major Henrique Quintiliano ocuparam o túnel. Ocuparam ainda as estações próximas de Perequê (do lado paulista), Túnel, Manacá e Passa Quatro (do lado mineiro) permanecendo estas sob manso domínio paulista até 15 de julho. Neste dia chegam à Passa Quatro soldados do Exército do 4º Regimento de Cavalaria Divisionária de Três Corações e do 10º Regimento de Infantaria de Juiz de Fora comandados pelo tenente-coronel Eurico Gaspar Dutra (que entre 1946 e 1950 governaria o Brasil). Os soldados paulistas que estavam na estação se aproximam dos mineiros com o intuito de com eles confraternizarem (desconheciam que Minas Gerais não havia aderido à Revolução) e são recebidos a balas!

Aquelas que seriam apenas as primeiras das dezenas de milhares que foram disparadas por ambos os lados durante os 59 dias de combates na área do túnel.

O comando das forças ditatoriais acreditava que venceria a resistência paulista com facilidade e que em dois dias estaria entrando em Cruzeiro com suas tropas. Não contava com a resistência e a tenacidade dos soldados paulistas que ao longo da luta foram reforçados por tropas do 2º Grupo de Artilharia Pesada (comandados pelo famoso capitão Arci), de batalhões patrióticos (compostos por voluntários) como Batalhão Bahia, Corpo de Bombeiros e do 2º Batalhão de Caçadores Paulistas da Força Pública de São Paulo (comandado até 26 de julho pelo tenente-coronel Herculano de Carvalho). As tropas ditatoriais seriam posteriormente reforçadas por grande contingente da Força Pública de Minas Gerais comandadas pelos coronéis Edmundo Lery e Franciso Bueno Brandão.

Os paulistas, senhores do túnel no início da campanha, foram aos poucos perdendo posições no terreno para as tropas ditatoriais em maior número e mais bem armadas. Logo nos primeiros dias de combates os paulistas deixam o lado mineiro do túnel. Nos seguintes perdem posições estratégicas importantes nos morros próximos ao túnel como os Picos do Cristal, Itaguaré e Garupa no flanco esquerdo e os Picos da Gomeira e Gomeirinha no flanco direito.

Ainda assim as tropas paulistas resistiam bravamente aos ataques ditatoriais. Grandes eram as dificuldades enfrentadas pelos soldados constitucionalistas em especial quanto a continua redução do estoque de munições, alimentação e substituição dos soldados em combate por tropa de reserva.

Em 12 de setembro, durante a noite e sob fogo de cobertura de artilharia, os paulistas são obrigados a abandonar o túnel. Teriam condições de resistir por mais alguns dias, porém as tropas getulistas estavam às portas de Cruzeiro, pelo eixo Rio-São Paulo, o que comprometia a retaguarda constitucionalista. Pela manhã do dia seguinte os ditatoriais finalmente ocupam o túnel da Mantiqueira. Às quatro horas da manhã do dia 14 o coronel Edmundo Lery entra em Cruzeiro onde se encontra com as tropas do general ditatorial Daltro Filho vindas de Lavrinhas.

As tropas paulistas, seguindo ordem do coronel Figueiredo, fazem grande retraimento para a cidade de Guaratinguetá onde se encontrava a última linha de defesa paulista no Vale do Paraíba em 2 de outubro, data da cessação das hostilidades entre constitucionalistas e ditatoriais.  

Segundo o livro Cruzes Paulistas, de 1936, dos pouco mais de 600 paulistas mortos durante a Revolução de 1932, 66 perderam a vida no túnel da Mantiqueira. Dentre os soldados getulistas não há um número oficial, mas acredita-se que, só no túnel, tenham morrido entre 200 e 400 homens. Estima-se ainda que mais de 200 corpos estejam enterrados nas cercanias do túnel. Nenhum deles identificado até hoje. Bravos soldados desconhecidos que tingiram de vermelho as matas e os morros da Serra da Mantiqueira na defesa de um ideal.

Que descansem em paz...


Mapa da região do Túnel da Mantiqueira (localização aproximada em vermelho)

Soldados constitucionalistas na extremidade paulista do túnel em 1932




Soldados Paulistas entrincheirados no túnel

Local próximo à extremidade paulista do túnel sob ataque inimigo em 32


A caminho do túnel 83 anos depois
Extremidade paulista do túnel atualmente


Caminhando pelo túnel

Pelo caminho pedras indicando local de sepultamento de soldados desconhecidos


Extremidade mineira do túnel



Monumento em homenagem aos paulistas mortos em combate




Referências Bibliográficas

PINHO, Celso Luiz. 1932 - O TÚNEL DA DISCÓRDIA. Editora Gregory: São Paulo, 2012

NOGUEIRA FILHO, Paulo. A GUERRA CÍVICA 1932. Resumo da obra em 6 tomos por Paulo Ferraz do Amaral. Sociedade Veteranos de 32, 1982


O TERRÍVEL TREM BLINDADO



Das armas usadas pelos paulistas durante a Revolução de 32 talvez a mais impressionante tenha sido o Trem Blindado (TB). Seis deles operaram durante a Revolução nas frentes Sul, Leste ou Mineira e Norte (Vale do Paraíba).

Segundo o Coronel Euclydes Figueiredo, comandante das tropas paulistas no Vale do Paraíba, o trem foi “um valioso engenho de guerra criado pelos engenheiros ferroviários paulistas. Compunham-no dois carros-bagagem da E.F. Paulista, tendo de permeio uma locomotiva. Esses três elementos, separadamente eram envoltos por uma couraça, constituída de duplas chapas de aço com pranchões de madeira ao centro. Num dos carros abriam-se seteiras para metralhadoras pesadas e fuzis-metralhadoras e para observação dos tiros; no outro, o da frente, havia, além disso, dispositivo para colocação de uma peça 75. Iluminavam-lhe o caminho sobre o leito da estrada de ferro dois possantes projetores, que também serviam para clarear o campo de tiro de suas armas[1]

Coronel Euclydes Figueiredo

Apelidado pelos soldados ditatoriais de o “Fantasma da Morte”, este primoroso fruto da inventividade paulista levava o pânico às linhas inimigas. Seus holofotes (projetores) durante a noite iluminavam as trincheiras do adversário clareando os alvos para suas armas causando pesadas baixas aos ditatoriais.

Equívocos, como em qualquer guerra, aconteceram e nosso trem blindado atacou com precisão não apenas as trincheiras inimigas, mas também as paulistas! Verdadeiras ocorrências de “fogo amigo” verificadas em mais de uma ocasião e em  diferentes setores de combate. Paulo Duarte, oficial voluntário e ex-comandante de trem blindado, narra uma dessas ocorrências na região da divisa com o Rio de Janeiro: “Acordou-nos o Barbieri, anunciando a chegada dos mortos. ‘Que mortos?’ ‘Pois esta noite o trem blindado matou uma trincheira inteirinha nossa!’ Corremos à estação. Sobre uma gôndola recém- chegada, oito feridos. Dois em coma. Uns gemiam, outros sofriam em silêncio. Soldados em torno assistindo a remoção para uma ambulância. ‘Está vendo, seu capitão! Em vez de acabar com o inimigo, acaba com os nossos.’ ‘Como?’ interroguei de cara fechada. ‘O blindado que fez esse estrago![2]

Paulo Duarte - Fonte:unicamp.br/cedae



Trem Blindado que operou no Setor Sul - Estrada de Ferro Sorocabana





[1] FIGUEIREDO, Euclydes. CONTRIBUIÇÃO PARA A HISTÓRIA DA REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932, p.195. Livraria Martins Editora, 1981.
[2] DUARTE, Paulo. PALMARES PELO AVESSO, p.56. Instituto Progresso Editorial, 1947.

terça-feira, 28 de julho de 2015

CAMPANHA "OURO PARA O BEM DE SÃO PAULO"



Com o intuito de arrecadar fundos para o financiamento do movimento revolucionário, criou-se, em 1932, a Campanha “Ouro Para o Bem de São Paulo” ou “Ouro Para a Vitória”.

Organizada pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP) que em 9 de agosto constituiu comissão a ser encarregada da campanha. Compunham a comissão Carlos de Souza Nazaré (Presidente da Associação Comercial), José Maria Whitaker, Numa de Oliveira, Vicente da Almeida Prado, Monsenhor Gastão Liberal Pinto, Erasmo de Assumpção e Gastão Vidigal, todos integrantes da diretoria da ACSP.

O objetivo da campanha era o de conclamar todos os paulistas a doarem objetos de ouro bem como joias e outros objetos de valor que pudessem financiar a luta contra a ditadura de Getúlio Vargas e seu Governo “Provisório”.

A iniciativa, assim como tantas outras durante a Revolução, se espelhava em campanha semelhante feita por franceses durante a I Guerra Mundial.

Acreditava-se que nenhum paulista deixaria de fazer sua contribuição mesmo que fosse com uma pequena quantidade de ouro para a “vitória sagrada de São Paulo e do Brasil, na vida de luta ou de morte em que estaremos emprenhados.” Os donativos eram “a opulência de sentimento cívico dos paulistas.[1]

Casais doaram suas alianças, médicos e advogados seus anéis de formatura, jovens desportistas as suas medalhas.  Na capital e no interior recebiam-se ainda todo e qualquer tipo de objeto de ouro como canetas, vasos, cigarreiras.

Para as alianças de casamento (maior patrimônio de tantos casais) e anéis de formatura entregues, dado o valor sentimental dessas joias, em troca recebiam os doadores anéis de latão, de valor simbólico, com a inscrição “Dei Ouro para o bem de São Paulo” acompanhado ou não de um diploma.

Anel de valor simbólico conferido aos doadores


Diploma da Campanha do Ouro

A cada dia cresciam as doações bem como a identificação popular com a campanha. Empresários, presidentes de entidades e religiosos vinha a público, pelo rádio, externar seu apreço à causa e conclamar o povo a aderir.

Até o final da campanha, dias antes da derrota militar, haviam sido recebidos quase 33.000 donativos.

Próximo ao dia do armistício, por rádio, o General Klinger (comandante das tropas constitucionalistas) fala ao General Góes Monteiro (comandante das tropas ditatoriais) da determinação de gente bandeirante em sustentar a guerra entregando donativos para a campanha:

“...os ricos entregam o seu ouro, com discrição britânica e bravura romana, atributos bem brasileiros; as senhoras despojam-se de suas joias; os bispos entregam o ouro das igrejas  e as suas próprias cruzes peitorais; os casais pobres levam à coleta suas alianças; os advogados, os médicos, os seus anéis...”

General Bertoldo Klinger

Na antevéspera da ocupação da cidade pelas tropas ditatoriais, receando-se que o ouro paulista caísse nas mãos do Governo Provisório, a comissão organizadora da campanha revolveu doar à Santa Casa de Misericórdia o que havia restado desse tesouro popular.

Com os recursos obtidos com a venda do ouro recebido, a Santa Casa (na época já em dificuldades financeiras) construiu um edifício de salas comerciais no centro de São Paulo: o prédio Ouro Para o Bem de São Paulo que até esta data integra seu patrimônio.


Prédio Ouro Para o Bem de São Paulo localizado na rua Álvares Penteado 


 Referências Bibliográficas

Hernani Donato: A Revolução de 32. Editora Circulo do Livro, 1982
Revista Digesto Econômico. Edição de Maio/Junho de 2012. Associação Comercial de São Paulo



[1] O Estado de São Paulo, 10 de agosto de 1932

segunda-feira, 6 de julho de 2015

SOLDADO PAULO LOBATO GIUDICE


Hoje destacamos no blog a participação deste santamarense de coração que integrou a Companhia Isolada do Exército de Santo Amaro (vide post de 1/9/2014) e bravamente, com seus familiares, lutou por São Paulo na Epopeia de 32. Seus restos mortais hoje repousam no Mausoléu do Soldado Constitucionalista do Ibirapuera.

Agradeço a Camila Giudice que compartilhou conosco este belo texto sobre sua família que, um dia, deu "TUDO POR SÃO PAULO!".


"Fui descobrir muito tarde sobre a participação de minha família na Revolução Constitucionalista de 32. Na nossa família, não era comentado sobre esse assunto, mas de outras realizações da qual também temos muito orgulho. Somos de uma família que fez muita história em São Paulo, grandes nomes, muitas conquistas, e este assunto não era do meu conhecimento até eu trabalhar no Parque do Ibirapuera e monitorar visitas no Mausoléu do Soldado Constitucionalista em Homenagem aos Heróis de 32 (Obelisco do Ibirapuera) no ano de 2001, onde em justa homenagem, desde 2002 o soldado Paulo Lobato Giudice se uniu à ultima trincheira.

Nascido aos 27 de Novembro de 1906 em Pindamonhangaba, filho de José Gouveia Giudice e Otília Lobato Giudice. Foi uma pessoa muito querida, de família de intelectuais e influência. Sempre bastante cordial, gostava de estar com amigos. Fez sua carreira no Instituto Biológico de São Paulo, como servidor público. Trabalhou no controle de pragas de gafanhotos em cafezais, ia de trem, carro, muitas vezes a cavalo. Ocupava o cargo de Inspetor de Produção Vegetal, lotado no Departamento de Defesa Sanitária da Agricultura. Chegou a trabalhar no Mato Grosso no controle de praga de gafanhotos, e em São João da Boa Vista (SP), (onde conheceu sua esposa Evani, em uma procissão) na inspeção da ferrugem nas lavouras de Café. Se aposentou como Chefe de Vendas do Departamento de Vacinas.

Na família, seu pai José Gouveia Giudice, Carlos Lobato e Geraldo Lobato Giudice também combateram na Revolução.  Também Monteiro Lobato (primo-irmão de meu avô), como apoiador da Revolução de 32.

Sua passagem pela Revolução Constitucionalista de 32 se deu em várias frentes, como no Batalhão de Santo Amaro (onde serviram seu pai José Gouveia e irmão Carlos Lobato Giudice, este Engenheiro e Professor da USP), no Litoral e também em Itú. Em Itú, deu seu uma passagem curiosa, em uma troca de munições com outro soldado, já estava de noite, não conseguiam se ver direito, e quando chegaram próximo à fogueira, descobriu que o outro soldado era seu irmão Geraldo.

Todos voltaram com vida da Revolução. Meu avô Paulo e seu pai José eram soldados, seu irmão Geraldo 2o Sargento na Revolução e o Carlos era cabo.

Meu avô Paulo se casou com a Sanjoanense Evani Loiola Fontão, cuja família também tradicional, de fazendeiros de café, havia tido grande participação na Revolução. Consta em registros os que lutaram em São João da Boa Vista: André Loiola, José Oliveira Fontão, Nildes Fontão de Souza, Rogério de Oliveira Fontão e Vidal Fontão (este, meu bisavô). Suas tias Maria José Loiola e Odete Loiola fizeram parte da Cruz Vermelha Sanjoanense, juntamente com Lucinda Peres Fontão e Maria Aparecida Fontão de Sousa. Em outras frentes, também a participação de Sérgio Loiola.  Morou por um período em São Paulo, no Bairro de Santo Amaro, onde criou seus três filhos: Maria Aparecida Lobato Giudice, Paulo Antônio Lobato Giudice e José Carlos Fontão Giudice (meu pai). Retornaram para São João da Boa Vista. Meu avô Paulo faleceu em 1996 e minha avó em 2015. Tiveram uma vida muito plena, com muito amor e carinho de sua família. Hoje, conto e perpetuo a história de minha família e de heróis paulistas de 32 com muito orgulho. Fiz um retrato (uma pintura) de meu avô, que se encontra em acervo permanente no Tribunal de Justiça de São Paulo."

Camila Giudice (neta de Paulo Lobato Giudice)

São Paulo, 06 de Julho de 2015.

PAULO LOBATO GIUDICE


Paulo Lobato Giudice e Evani Fontão Giudice


Soldado José Gouveia Giudice

Maria José Loiola



Da esquerda para direita - Maria José Loiola, Odete Loiola, Evani Loiola Fontão Giudice

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O 22º Aniversário da Revolução Constitucionalista em Santo Amaro



O ano era 1954. A cidade de São Paulo, em 25 de janeiro, havia comemorado seus 400 anos. Em Santo Amaro, a 9 de julho do mesmo ano, comemorava-se o 22º aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932.

O bairro, outrora cidade, estava em festa. Muitas casas ostentavam nas fachadas orgulhosamente a bandeira paulista. Nenhum santamarense naquele dia deixou de reverenciar a Epopeia Cívica Paulista que pouco mais de duas décadas antes ajudou a mudar a história do Brasil.

No mesmo dia, no Cemitério de Santo Amaro:

“Cerimônia tocante foi realizada junto ao túmulo do herói santamarense Delmiro Sampaio, que repousa em berço esplêndido e cercado da admiração de todos aqueles que conhecem a sua história de idealista e paulista que amava o Brasil. A solenidade foi de uma emotividade sem par, vendo-se em torno à sepultura considerável multidão que estampava no rosto a emoção daquele instante de veneração, mas também o orgulho de estar ali cultuando a figura de um herói valoroso e que deu em holocausto à pátria o que de melhor possuía: a sua vida moça e o seu sangue generoso.”

No Cemitério de Santo Amaro reuniram-se para prestar homenagens junto ao túmulo do Voluntário Delmiro Sampaio homens que haviam, em 32, integrado a Companhia Isolada do Exército de Santo Amaro – CIESA. Entre eles estavam: o comandante Capitão Luiz Martins de Araújo, o tenentes Waldemar Teixeira Pinto, Sebastião Rodrigues Campos, Waldomiro da Cunha Lobo e Goberto de Paula Avelar. Os sargentos Oswaldo Machado, Ricardo Grassmam e João Baptista Cataldo. Presentes ainda estavam os ex-combatentes: Jaime Marques, Olavo Luz, Ricardo Nascimento, Guaracy P. de Alcântara, Arlindo Machado, José de Oliveira Andrade, João Brito, Alfredo Lacerda, Francisco Comenale e Plínio Negrão.





Plínio Negrão além de ex-combatente constitucionalista foi professor dos mais conhecidos em Santo Amaro. Hoje uma rua da Granja Julieta e um colégio estadual da Vila Cruzeiro levam seu nome.

Plínio Negrão
Plínio Negrão e seu filho Milton trabalharam vários dias no túmulo do Voluntário Delmiro a fim de ornamentá-lo para aquele 9 de julho de 1954. Juntos pintaram-no, poliram sua placa de bronze, cobriram-no de flores e bandeiras artísticas.


Túmulo do Voluntário Delmiro Sampaio em 9 de julho de 1954

Antiga placa que indicava a Rua Voluntário Delmiro Sampaio semelhante à que estava sobre seu túmulo


Compunham a Comissão Organizadora das festividades do 9 de julho de 1954 em Santo Amaro: Walter Kivi, Teodoro Romano, Reinaldo Finucci, Achilles Ruggiero, Carlos Sgarbi Filho e Ulisses de Moraes.

Cemitério de Santo Amaro nos dias atuais

Obs: Os restos mortais do Voluntário Delmiro Sampaio foram transladados do Cemitério de Santo Amaro para o Mausoléu do Soldado Constitucionalista do Ibirapuera em julho de 1957.


REFERÊNCIAS

Revista Interlagos edição de julho de 1954
maps.google.com
www.facebook.com/pages/Homengem-ao-Colegio-Plinio-Negrão-1960-a-2014